A crônica da viajante solitária

Quando morava em Roma passeava muito sozinha. Almoçava, jantava, viajava, tudo sozinha.

Afinal, estava num lugar incrível, com um milhão de possibilidades mais incríveis ainda, tempo limitado para explorá-las, e, ué, sozinha. Vez ou outra conseguia encaixar o cronograma com amigos, mas, quando isso não era possível, não deixei ser um obstáculo para que os MEUS planos não falhassem.

Uma ragazza sozinha pela Itália se depara com diversas situações, no mínimo, cômicas.

Em primeiro lugar, o simples fato de ser uma mocinha desacompanhada já atraía a atenção.

– Você tem alguém vindo te encontrar? NÃO?!

– O que te deu na cabeça para vir parar aqui sozinha?

– O que o seu pai pensou quando você quis deixar o Brasil?

E por aí vai.

São comentários que irritam sim, mas depois de 2 minutos se esquece.

E às vezes tem alguém querendo tirar vantagem disso.

Taxistas e garçons são implacáveis com meninas “soltas” pelo mundo. Convites para jantar, pedacinho de papel com o número de telefone junto com a conta do restaurante, mensagem no celular… É o tipo de coisa que se enfrenta na Itália.

De novo, irrita. Mas basta um corte que não se prolonga.

Mas, afinal, existe perigo efetivo na Itália para uma rapariga?

Ouso responder: não.

A única cidade em que me senti insegura foi Nápoles. Mas eu estava sem ninguém e sobrevivi. E só. Roma, Verona, Florença, Veneza, Sicília, Sardenha… Tranquilíssimo.

Dizem que Milão tem registrado alguns casos de furtos. Nunca aconteceu comigo, mas é bom prestar atenção.

E como se divertir em uma viagem sozinha?

Eu fui parar até na Bélgica, e me virei muito bem, obrigada.

Em primeiro lugar, o melhor de tudo de se estar sem ninguém é fazer o que você quer, na hora que você quer.

Dormiu tarde? Está com preguiça de madrugar? Beleza, acorde mais tarde e vá direto para o local que te interessa.

Está com preguiça de jantar fora e prefere pedir um cheeseburguer no quarto e acordar cedinho para passear? Ok, faça como quiser.

Não tem ninguém com você se arrumando na expectativa de sair à noite.

O ponto alto de viajar sozinha é não ter compromisso com ninguém, só com você mesma.

E, o melhor, se pular aquele museu que todo mundo fala para se jogar na grama do parque em um dia de sol, ninguém vai te julgar.

Eu me divirto sozinha. Tiro muitas fotos, aprecio muitos detalhes, e reparo muito nas pessoas esquisitinhas que vemos por aí.

A viagem solitária às vezes requer, entretanto, a companhia de alguns apetrechos que podem ajudar: livros, revistas, iPod, laptop, e, claro, smartphone.

São acessórios que esperamos não utilizar mas é bom tê-los por perto em caso de uma emergência, como um restaurante extremamente boring, sem movimento de transeuntes descolados para se apreciar.

Porque a única parte chata mesmo de se viajar sozinha, é não ter companhia nas refeições.

Sim, confesso, é bem chato almoçar e, mais ainda, jantar sozinha.

Mas essa é outra atividade que aprendi a executar com desenvoltura quando morei fora. É preciso vencer a vergonha de frequentar restaurantes badalados desacompanhada. Te garanto que a refeição sem companhia vai se tornar muito menos sacrificante se você estiver em um local divertido, com pessoas interessantes à volta, e, claro, com uma comida maravilhosa.

Uma vez estava em NY, na minha primeira viagem sozinha, fui até um restaurante que haviam me indicado, tomei quase uma garrafa de vinho, e voltei tão feliz e tão sozinha que peguei o metrô certo, mas para a direção errada.

Resultado?

Fiquei amiga do maquinista, que me indicou qual outro trem deveria tomar, para não ter que esperar toda a viagem de volta da Brooklyn Bridge.

Sobrevivi. E, o melhor, situações assim nos deixam mais confiantes ainda diante dos imprevistos que vierem a aparecer em outros cantos do mundo quando não temos a quem recorrer ali do lado.

E, quando se está sozinha, inconscientemente nos abrimos mais para enxergar lugares que muitas vezes não vemos e pessoas que nem sempre percebemos à nossa volta.

Eu mesma tenho um amigo que conheci em um voo São Paulo-NY, já há mais de 10 anos.

São nessas situações que você pode descobrir um lugar que ninguém nunca havia te indicado, fazer uma amizade para a vida toda, ou, quem sabe, até conhecer o amor da sua vida!

É preciso aproveitar as oportunidades que temos. Porque elas vêm muitas vezes para você. E só.

Eu.
Foto: magari blu

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9 thoughts on “A crônica da viajante solitária

  1. Natália Andressa Baffatto says:

    Muito bacana você postar isso, pois vive exatamente isso em Roma: almoçava e jantava na maioria das vezes sozinha. E sempre pensava que com certeza tinham outras meninas que também viviam a mesma coisa, seja em Roma ou qualquer canto do mundo. No entanto, sozinha nos restaurantes, me divertia muito com o dono do restaurante e com os próprios garçons. Fiz amizade, ri muito e conheci mais da cultura local, além de diversas vezes ganhar um desconto por pura simpatia.

    Acredito que todos que vão viajar criam seu próprio roteiro, e quando quis conhecer A MINHA ROMA, foi incrível seguir tudo do meu jeito. Eu tinha meus restaurantes para ir, que nem sempre cabem no bolso de todo mundo, principalmente na vibe de estudante que a maioria vai, e eu não tinha vergonha, pelo contrário, entrava sempre sorridente e feliz. Feliz da vida por vivenciar o que sempre quis. E não podemos deixar algumas barreiras nos travar. Esse momento de solidão é importante também para outros fatores da vida. É aí que começam grandes reflexões que nos puxam para grandes mudanças.

    Em São Paulo, por exemplo, sempre estou almoçando, jantando e encontrando com os amigos. Com certeza a gente se fecha mais para o que e quem nos rodeia. E em Roma eu estava completamente aberta, de olho em tudo, observando tudo aquilo. E tudo que acontecia era novo. Cada pessoa que conhecia era nova. Era exatamente o que eu buscava. E claro que, uma hora ou outra, era delicioso almoçar com algum amigo, bater papo com a galera ou encontrar a irmã em Firenze e vibrar de alegria por estar jantando com a irmã e até falando português, pois por mais apaixonada que eu seja por italiano, é bom falar um pouco nosso idioma!!

    Desculpa o desabafo aqui, rs, mas é bom encontrar alguém que pensa do mesmo jeito e viveu coisas parecidas 🙂

    Bacione!

    • Ana Maria Junqueira says:

      Natália, gostei muito do seu comentário. Saiba que uma das minhas maiores experiências vividas morando sozinha, viajando sozinha, jantando sozinha, foi o auto-conhecimento! Vivi em 1 ano, 10 anos. Entendo exatamente o que você disse e compartilho eu também do seu sentimento. Obrigada por dividir com a gente. Parece que tivemos experiências muito parecidas mesmo e é legal “encontrar” gente assim. Te espero sempre por aqui! Baci

  2. Andreia Borges says:

    Adorei seus comentários. Viajo bastante sozinha, pois nem sempre as férias dos meus amigos coincidem, então, não deixo de ir por causa disso. Almoçar sozinha eu acho tranquilo, a parte que eu considero pior é jantar sozinha, pois parece que as pessoas a sua volta te olham com “pena” rs. Geralmente à noite acabo optando por um lanche. Acho que as pessoas estão começando a abrir as mentes sobre a possibilidade de fazer programas sós e felizes.

    • Magari blu says:

      Acho que sim também, Andreia! Uma vez em Assisi, na Itália, um grupo de senhoras passou por mim, enquanto eu jantava sozinha, e disseram: “antes só do que mal acompanhada!!”. E caímos na risada. De fato, nós mesmos podemos ser nossas melhores companhias! 😉
      Obrigada pela visita!

  3. Gege says:

    Adorei seu relato. Sou uma viajante solitaria. Te garanto, se vc falar ingles nunca sera solitaria. Me avostumei tanto viajar sozinha pelo mundo que agora driblo quem quer viajar comigo, por uma unica razao: cansei de fazer tabelinha com quem viaja para so fazer comprad e dormir ate meio dia. Fui. Sou como vc , faminta por informacoes e culturas de paises que visito. Tambem eh dificil encontrar alguem que vomungue vom vc os mesmos interesses

    • Magari blu says:

      Oi Gege, é difícil mesmo encontrar quem tenha os mesmos interesses que a gente em uma viagem! Que bom que você provou e se viciou em ser uma viajante solo. Obrigada por comentar por aqui! 😉

  4. Ana Paula says:

    Recentemente me tornei uma viajante solo. Fiz 2 viagens para o litoral. A primeira viagem sozinha é algo libertador, é claro q deu um frio na barriga mas tirei de letra. A segunda vez foi melhor, me senti mais confiante e nem dei importância pra olhares do tipo ‘nossa ela tá sozinha, q pena!’ kkkkkkk. Foram os dias mais felizes da minha vida. Eu acordava a hora q queria, dormia e comia o que e onde queria, sem ninguém me enchendo. Pretendo fazer outras e pra mais longe 🙂

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