Quando cheguei em Roma, sabia que um dos meus maiores desafios não seria somente estudar, entender a língua, concluir o mestrado. Seria, pela primeira vez na vida, e em um país distante, administrar a minha própria casa.
Dizem que a gente só entende nossos pais quando nós temos os nossos próprios filhos. Eu confesso que só os entendo agora tendo a minha própria casa.
Foi um pouco difícil achar apartamento em Roma, mas quando o encontrei, gostei tanto que pouco liguei para um (“mínimo”) detalhe: o prédio sem elevador.
Quantos andares subo todos os dias, várias vezes por dia?
Um, dois (ai, já está queimando a batata da perna), 3 (pausa, cansei) e… mais um… 4!
Normalmente as pessoas dizem que é tranquilo, até virem aqui e chegarem ofegantes na minha casinha. Mas pelo menos eu economizo na academia.
E a chegada de viagem com mala então? Tem que ser mala de rodinhas. E, de preferência, pequena. Aí vou arrastando degrau por degrau, fazendo um eco na escadaria de mármore que dá pena dos vizinhos. E eu nunca escuto ninguém mais fazendo essa baderna… Será que só eu que viajo no meu prédio?
Enfim, vários edifícios de Roma não têm elevador, porque, em regra, são prédios antigos. Muitos até de 1500… Eu achava que o meu prédio em São Paulo era velho.
Ai… Eu achava tanta coisa que não acho mais…
As compras para a casa têm que ser racionalizadas, igual ao racionamento de energia para não dar apagão. Por questões físicas.
Não dá para querer fazer a compra do mês e chegar com 1 tonelada de sacolas e levá-las 4 andares para cima. Não tenho condicionamento físico para tanto.
Por isso, vou ao supermercado quase todos os dias, porque esta onda do racionamento de compras dá trabalho.
Sempre falta alguma coisinha.
Outro empenho que a nova vida de dona de casa me presenteou é a sessão do dia de lavar roupa.
Aqui tenho uma máquina de lavar e ela fica dentro do armário no quarto. Os espaços nos apartamentos europeus em geral são muito otimizados. E engraçados. Eu nunca tinha tido uma máquina dentro do meu “closet”!
O dia de lavar roupa não é um dos meus preferidos. Vocês podem imaginar, com tanta coisa acontecendo por aí, ficar em casa só no lava, passa, enxágüa, enxuga não é legal.
Mas fazer o que? Faz parte da minha nova rotina e pode ser divertido.
Ok, não pode, mas também não é o fim do mundo!
E até que eu gosto do cheirinho de amaciante que fica no apartamento depois da lavagem!

E cozinhar? Cozinhar na Itália é muito mais fácil porque se está já no clima da massinha italiana e só botar a água para ferver.
A qualidade dos ingredientes que se encontra por aqui ajuda bastante também. E, no dia de preguiça, tem sempre um molho pronto quebra-galho perfeito. Porém, acidentes podem acontecer.

Ontem estava eu fazendo capeletti, e, no auge da preparação, no ponto alto do fogão, toda animada e morrendo de fome, a panela simplesmente quebra e o cabo voa! E voa longe! Assim como muito molho de tomate pelos azulejos da parede.
Nunca vi panela quebrar sozinha. Foi muito incentivador…
Outras coisas andam quebrando por si só aqui. Hoje de manhã, abri a porta do meu quarto e o spot de luz do corredor tinha simplesmente caído do teto no chão, quebrado, e infestado meu piso de caquinhos de vidro.
Fiquei até assustada… Como que cai do nada um negócio desses? Já tive que acordar com a vassoura na mão!
E não é a primeira vez que as coisas caem do alto não. Logo que cheguei, fechei uma porta e o batente caiu! Pegou no meu braço, doeu pacas, mas pelo menos não foi na minha cabeça. Imagina só ser golpeada pelo seu próprio apartamento?
Porém aos poucos estou pegando o jeito da coisa…
Toda a função Amélia não me incomoda mais tanto assim.
Vivendo e aprendendo, estou até menos ousada também depois da minha depressão pós-feijuca.
Mês passado comprei feijão preto, farinha de milho e fiz, toda empolgada, uma feijoadinha, adaptada obviamente.
Acontece que nem eu consegui comer a minha própria comida. Ficou horrível! Até a farofa! Como pode uma farofa ficar ruim? A farinha daqui é amarga. Só pode ser isso!
Passada a depressão pós-fracasso na feijuca, entendi que menos é mais, voltei para o meu básico, e, na próxima visitinha à casa da mamãe, tenho certeza que o meu querido feijão preto estará me esperando, molinho, com caldo e com gosto, e com arroz soltinho Tio João!

Essa vida não é fácil! Como diria o Rei Roberto Carlos, “Amélia é que era mulher de verdade!”.
Roberto Carlos: “Ai que saudades da Amélia”

Imagens: Reprodução

Bom dia Ana Maria!
Que delícia de ler essa crônica. Senti que eu estava em Roma. Ótima!
Obrigada, Regina!
Beijos
Oi Ana, tudo bem por ai apesar de todas essas coisas? rs…
Eu moro sozinha aqui em Campinas e odeio quando faço comida e ela fica péssima! rs… Não nasci pra ser a tal da Amélia, mas a minha independência me custa e então… viro Amélia sim! rs…
O que eu acho mais engraçado de Roma, e na Itália como um todo são as roupas que as pessoas secam para fora do apartamento! Nas ruas se pode observar as janelas cheias de roupas e isso é muito engraçado! Voltei com várias fotos de janelas e de roupas…rs..
bjs pra você ai…
Ana
Oi, Ana! É o preço da nossa independência!!!
Realmente é muito engraçado e característico daqui os varais do lado de fora das janelas! Vou escrever ainda sobre isso! Beijos e obrigada pela visitinha ao blog
Ana,
acabei de conhecer seu blog e adorei.
Vi que vcê está em roma e tem um restaurante que vc não pode deixar de ir e comer dois pratos um caccio pepe e o tiramissu. O nome do restaurante é Felice a Testaccio, é sensacional!!
Bjss Ana lembo
http://dopaoaocaviar.blogspot.com/
Olá, Ana! Obrigada pela dica! Vou conferir.
Volte sempre aqui!
Beijos