Dicas de Berlim por Laura Ammann
Para os amantes da arquitetura, Berlim é uma cidade que tem muito a oferecer. As diferentes escolas arquitetônicas que formam a paisagem da cidade passam pelo neoclássico Schinkel e por Martin Gropius. Num outro sentido, permanecem ainda algumas estruturas nazistas como o Olympiastadium (Estádio Olímpico), reformado pelo arquiteto Werner March para as Olimpíadas de 1936, servindo aos propósitos do partido; e o Waldbühne (“palco na floresta”), construído a pedido do então Ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, que hoje funciona como local de concertos ao ar livre. Ainda entre os exemplos, está o antigo bunker, construído sob a supervisão de outro arquiteto nazista, Albert Speer, que hoje é a Sammlung Boros.
Já no âmbito mais moderno e contemporâneo, prédios de arquitetos como Rem Koolhaas, Frank Gehry e Norman Foster, além de conjuntos como a Potsdamer Platz e o Interbau (com Le Corbusier, Walter Gropius e Oscar Niemayer), atraem olhares e visitas de quem se interessa pelo assunto.

ou Unité d’Habitation
Foto: Laura Ammann
Um dos pontos arquitetônicos bastante queridos em Berlim é o Corbusierhaus, como é chamado hoje, ou a Unité d’Habitation. Trata-se de um conjunto de apartamentos projetado por Le Corbusier, que fica na região de Westend, facilmente acessível pela estação de SBahn Olympiastadium.

ou Unité d’Habitation
Foto: Laura Ammann
A “unidade de habitação” berlinense não é a única do arquiteto suíço. Mais quatro prédios com o mesmo conceito foram erguidos nas cidades francesas de Marseille (1947-52), Nantes (1953-55), Briey-en-Fôret (1959-61) e Firminy (1965-67). Em Berlim, Le Corbusier projetou a convite do governo de Berlim o Unité d’Habitation, que começou a ser ocupado em 1957. O objetivo do projeto era mostrar à população um novo conceito de moradia funcional do pós-guerra. De fato, o componente funcional – e social – do projeto é um dos conceitos-chave da habitação e o ponto central da visita guiada do local.

ou Unité d’Habitation
Foto: Laura Ammann
A massiva construção de concreto se coloca no meio de uma paisagem de típica floresta alemã, em um bairro particularmente verde de Berlim. Projetado para funcionar como uma “cidade vertical”, a construção do complexo de 530 apartamentos foi concluída em somente 18 meses. Uma das primeiras informações dadas durante o tour pelo Corbusierhaus se refere aos diferentes tipos de apartamentos disponíveis: há de diferentes tamanhos e número de quartos, mas eles não são identificáveis por fora.
Os tamanhos dos apartamentos variam, quase que exclusivamente em função da quantidade de crianças da família, mantendo as áreas comuns, como cozinha e sala, praticamente inalteradas. Os 10 corredores que levam aos apartamentos, denominados “ruas internas”, podem ter a aparência de um hospital, ganhando um pouco de cor com as portas amarelas, cinzas e vermelhas. As portas vermelhas levam ao apartamento, enquanto as amarelas são de acesso para os técnicos, que podem, assim, trabalhar sem incomodar o inquilino.

é hoje usada em diversos âmbitos da arquitetura
Foto: Laura Ammann
Além disso, cada apartamento tem duas portinhas menores; a de cima, para medições de energia, e a de baixo, um projeto com uma história curiosa. Le Corbusier projetou-a tendo o público francês em mente: uma conexão entre apartamento e mundo externo sem que a dona de casa tivesse que propriamente receber alguém. Como as francesas não estavam em geral arrumadas logo cedo, o pão e leite entregues de manhã eram deixados nessa portinhola. Na Alemanha esse acesso foi utilizado de outra forma, já que as alemãs estavam sempre prontas muito cedo. Assim, a portinhola era usada para deixar os brinquedos das crianças, que poderiam pegá-los ao longo de um dia de brincadeiras sem incomodar a mãe.

Para entrada, serviço, medição e portinhola
Foto: Laura Ammann
Outras diferenças entre a versão berlinense e as unidades francesas são expostas durante a visita: em Berlim, por exemplo, os apartamentos são mais amplos e possuem um pé direito maior, seguindo as normas alemãs. Além disso, por falta de verba, Le Corbusier enfrentou em Berlim algumas restrições com relação a dependências internas do complexo. As edições francesas contam com mercados, área de piscina e diferentes aplicações da cobertura. Já em Berlim, o exterior do Corbusierhaus foi tombado em 1995, impedindo qualquer tipo de modificação, anexo ou acréscimo. Assim também acontece com as cores das fachadas: cada morador deve necessariamente estar contente – ou o mínimo satisfeito – com a cor de sua varanda. O interior dos apartamentos, no entanto, podem ser alterados e reformados. Um aspecto particularmente interessante da Unité d’Habitation são justamente as varandas: a forma como elas são feitas emoldura a paisagem; e a paisagem, nessa região de Berlim, é impagável.

Visitar o interior de um apartamento e ser informado sobre as diferenças dos projetos de Berlim e na França
Foto: Laura Ammann
Com um forte aspecto social, o projeto de Le Corbusier tenta criar uma dinâmica entre os moradores que funcione como microcosmo de uma sociedade. Apesar da grandiosidade do arquiteto, certa predeterminação das funções familiares, prevista nas Unités d’Habitation, se tornou escorregadia: é interessante ver como as funções sociais se alteram inesperadamente e se adaptam ao conceito de Corbusier de forma diferente dependendo do país e com o passar das gerações.

Foto: Laura Ammann
Para maiores informações sobre o Corbusierhaus Berlim e para marcar uma visita guiada (única forma de visitação) acesse:
corbusierhaus-berlin.org.
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