Europeu? Quem, você?

Brasileiro chega para morar na Europa e fica se achando.

Se escuta um turista falando em português ao seu lado na rua, finge que não tem idéia de que língua é essa, não esbanja a menor reação de patriotismo, e ainda faz questão de se comunicar na língua do país, para que sua origem extra comunitária fique acima de qualquer suspeita.

E quando tem brasileiro festejando a viagem de férias, dando risada, falando alto? Quem está vivendo na Europa logo já recrimina:

– Affff, que farofa! Tinha que ser brasileiro…

Mas e você, é de onde afinal?

De fato, é difícil não se deslumbrar porque tudo é muito diferente do que estamos acostumados. Mesmo eu, paulistana da gema, acostumada com São Paulo que oferece tudo em termos de serviços, entretenimento, culinária… Muito mais do que se encontra em Roma… E ainda 24 horas por dia, 7 dias por semana… Fiquei deslumbrada, confesso.

Quando você se dá conta, tem um apartamento alugado, conta em banco, CPF, amigos locais, uma rotina naquela cidade e a facilidade de estar em qualquer outro lugar da Europa em um pulo.

Logo a fama sobe à cabeça e você acha que nasceu e cresceu na Europa e que todos na sua cidade não têm a menor idéia do que é vida de verdade.

Em breve, terei oficialmente uma permissão para morar na Itália, porque somente o visto de estudante não é suficiente. É, eu fiquei muito metida. E nem passaporte europeu eu tenho. Imagina se tivesse… Daria carteirada de passaporte em todo mundo!

Entretanto, devo dizer, passados poucos meses de desembarque em território europeu, o cenário começa a mudar.

Você não se acha mais “O” europeu. Até porque você não o é. Desculpe, mas assim como Papai Noel não existe, não existe brasileiro europeu. O brasileiro que vive por aqui passa a se orgulhar de vir de um país de terceiro mundo e de ter uma oportunidade totalmente diversa da que tinha em casa. Orgulha-se também e exatamente por isso: por não ser a Europa a sua casa e por estar ganhando a vida por essas bandas.

Você está aqui para realizar um sonho, agregar alguma experiência de extrema valia e depois… Provavelmente voltará para onde é realmente a sua casa.

E, se não voltar, se a Europa se tornar o seu lar para o resto de sua vida, pode ter certeza que seus filhos falarão português e que todos no seu bairro saberão que você é aquele brasileiro simpático que fez daqui o seu território. E que simplesmente ama cruzar com algum brasileiro e ter a chance de falar na sua própria língua, discutir política, falar mal da Dilma e do Lula, e brigar sobre futebol.

Que na Europa tem muito de primeiro mundo, muita História, cultura, antigüidade e sabedoria, como nenhum outro lugar do planeta, você já sabia desde antes de chegar.

Contudo, começa a perceber que há também aqui tanto de terceiro mundo – o que até facilita a nossa adaptação, e que, por outro lado, faz também diminuir o desdém pelo nosso país tupiniquim.

Esses dias, fui pagar uma conta e me dei conta que tinha na carteira uma moeda de 2 euros falsa. Ao invés de cara ou coroa, tinha um pinguim na minha moeda!

Enganada…
Foto: magari blu

 

O moço do caixa riu da minha perplexidade e disse, em inglês: “Bem vinda a Itália!”.

Pois é. Desonestidade existe em todo lugar. Assim como gente boa, gente ruim, lugar lindo, lugar medonho, comida incrível, comida fraca… Até na Europa. Até na Itália!

Bateu uma saudade do meu Brasil…

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10 thoughts on “Europeu? Quem, você?

  1. Carol P says:

    Aconteceu comigo quando morava na Espanha uma nota falsa, voltei aonde me deram a nota e destrocaram, gente que nao eh honesta exite e qualuer lugar.
    Cheguei no seu blog atraves do No Matter what.
    Moro na Europa a muitos anos e ao contrario de vc no inicio tinha vontade de conhecer brasilerios, mas depois passou, nao eh ser metida eh questao de querer conhecer mais os nativos e fazer a adaptacao mais facil, e nunca jamais entrar no ciclo de morar fora do Brasil mas como no Brasil rodeado de brasileiros. Felizmente eu encontrei meu balanco.
    Diverta-se por Roma.
    bj Carol P
    http://motherlovedatabase.blogspot.com

  2. Ana Maria Junqueira says:

    Oi, Carol! Eu não tenho idéia de como a moeda falsa veio parar na minha mão… Então não tive como ir atrás!
    Você tem razão, é ótimo estar rodeada de pessoas do local em que estamos, ajuda a melhorar a língua e a entender melhor onde estamos vivendo. É uma brincadeira dizer que estamos metidas. Mas é gostoso também ter por perto amigos brasileiros 🙂
    Espero que tenha gostado do blog e que volte sempre.
    Bjs

  3. val says:

    olá…estou adorando suas aventuras..
    gostaria de saber os tramites burocráticos para sua ida

  4. Ana Maria Junqueira says:

    Oi, Val, obrigada pela “audiência”!
    A Itália é o país da burocracia, então percorri um caminho bem chatinho até chegar aqui.
    Estou fazendo um mestrado aqui e, como fiz a faculdade no Brasil e não tenho passaporte europeu, tive que obter uma declaração de valor do meu diploma e o visto de estudante.
    Para obter a declaração de valor, tive que providenciar o reconhecimento das firmas dos documentos escolares (históricos + diplomas), da escola e da faculdade. Depois, foi feita a tradução juramentada de todos esses documentos e o reconhecimento de firma também do tradutor. Enviei todos esses documentos para o Ministério das Relações Exteriores, que legalizam os carimbos de reconhecimento de firma dos tabeliães! Feito isso, que foi o que me deu mais trabalho, apresentei tudo no Consulado Italiano em São Paulo, juntamente com um documento que se chama lauda do concluinte, obtido no Diário Oficial do Estado, onde consta a data em que o ensino médio foi concluído. O Consulado analisa todos os documentos e emite uma declaração de valor do diploma da faculdade, que confirma à Itália que o diploma existe e é válido. Ufa! Se interessar, o site do Consulado em São Paulo para esse serviço é http://www.conssanpaolo.esteri.it/Consolato_SanPaolo/Menu/I_Servizi/Per_i_cittadini/Studi/Dichiarazioni_di_valore.
    Além disso, tive que obter o visto também, pois brasileiros podem ficar somente 3 meses em qualquer país da União Européia sem visto. Para o visto, apresentei alguns documentos como comprovação de admissão/matrícula na faculdade, da capacidade de sustento na Europa, seguro saúde, etc. O site para emissão de vistos é http://www.esteri.it/visti/ e está disponível em italiano e em inglês.
    Chegando aqui, ainda tive que solicitar o “permesso di soggiorno”, que é uma permissão emitida pelo Governo italiano para morar na Itália. Essa permissão é primeiro solicitada em qualquer Correio, preenchendo um formulário, e apresentando os mesmos documentos entregues para a emissão do visto no Brasil. Depois é agendado um horário no Centro de Imigração, onde recolhem as suas digitais, fotos e assinatura. Dali um mês e pouco é emitida a permissão! Só com ela se está legalmente vivendo na Itália. Não falei que a Itália era o país da burocracia???
    A permissão tem a mesma duração do visto, que é a duração do curso, e pode ser renovada diretamente aqui na Itália.
    Espero ter esclarecido!
    É um longo caminho, mas vale a pena quando tudo já está em ordem!
    Bjs

  5. Anonymous says:

    Oi Aninha,
    Obrigado por me lembrar da sua página e me fazer voltar. Gostei muito da reportagem completa sobre as sorveterias, com fotos, serviço e charme no estilo. A moeda com o pinguim também é uma delícia, própria dos malandros italianos. Uma vez um amigo quis me vender um Rolex, mas o preço não correspondia ao original. Perguntei: “Esse Rolex é bom?” E ele: “Claro! É italiano”. Beijos gordos e parabéns pelo trabalho, Léo

  6. Val says:

    Uau…nossa! super trabalhoso,hein…mas vale a pena!

    Grazie pela resposta! 😉

  7. Anonymous says:

    So que a Italia nao e um pais de primeiro mundo. E umas das merdas da Europa. mas parece com o Brasil.

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