O trauma do bilhete de ônibus

Na Itália, não há cobrador de ônibus. Nem para cobrar o seu bilhete, nem para colocar a mãozinha para fora para pedir passagem.

Assim, é imprescindível que o embarque seja feito com bilhete em mãos. Lá dentro não se vende o ticket. E, na grande maioria das vezes, também não se fiscaliza. Você entra com seu “passe” já comprado e o registra na maquininha. Cada um por si.

Não demorou muito tempo para eu perceber que 99% das pessoas não registram o seu bilhete e dão o gato. Pegam uma caroninha com o motorista. Eu ficava sempre reparando, reprovando, e, de certa forma, me sentindo um pouco idiota por ser a única que apresentava o bilhete.

Mas, de todo jeito, eu nunca subi em um ônibus sem um bilhete em mãos. A vontade de dar o cano era sempre latente, mas o meu ingresso estava ali comigo. Todos os dias. Menos um.

Saí da aula, entrei no ônibus, abri a carteira e “Ih! Cadê o bilhete?”. Logo me lembrei que havia trocado de bolsa e deixado na outra que estava em casa.

Eu tive aquela sensação de quando a gente esquece algo em casa e sente uma raivinha. Mas pensei que, nestes meses em Roma, jamais vi uma fiscalização no ônibus. Pelo contrário. Ninguém nunca registra seu bilhete. Em um sábado de sol, ônibus vazio, nada me aconteceria.

Fiquei despreocupada, olhando pela janelinha, até que, duas paradas mais tarde, subiu uma fiscal, devidamente uniformizada, e veio direto na minha direção:

– Bilhete, por favor!

Eu nunca me senti tão desonesta. A maior foragida da Justiça.

Dei aquela disfarçada básica, fingindo que o bilhete deveria estar ali em algum lugar, não para não ser pega, pois isto já não tinha volta, mas exatamente para não parecer uma marginalzinha. Para o delito ficar menos descarado.

Uma senhorinha estava sentada na minha frente e ficou me encarando, com um ar de desaprovação. Eu sentia meu pescoço e as minhas bochechas queimarem, vermelhos, de vergonha. Meus olhos se encheram de lágrimas como uma criança sendo pega no flagra e punida com castigo. Não estou brincando: eu fiquei arrasada.

Paguei a multa logo ali, na frente de todos (ainda bem que eram poucos), porque o valor, que já é alto, seria mais do que o dobro se pago depois. O que deu uma ligeira alongada na minha vergonha pública.

Esse episódio me incomodou tanto que eu nem queria escrever sobre isto no blog. Mas, ao mesmo tempo, serve como informação para quem está em Roma. Nunca entre no ônibus sem bilhete.

Desci e comprei 20 tickets. E nunca mais saio de casa sem conferir se as janelas estão fechadas, a porta trancada e os bilhetes de ônibus na carteira.

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