Shakespeare Company: teatro ao ar livre em Berlim

Dicas de Berlim por Laura Ammann

William Shakespeare faleceu em abril de 1616, o que faz deste ano o quarto centenário da sua morte. Em decorrência da data comemorativa, muitos teatros em Berlim, dos mais tradicionais aos mais modernos, estão com uma programação recheada das peças do escritor inglês.

Um deles, o Shakespeare Company, está apresentando entre julho e setembro, 5 peças de Shakespeare que se alternam: “O Mercador de Veneza”, “Macbeth”, “Noite de Reis”, “Conto do Inverno” e “A Megera Domada”.

A entrada do teatro Shakespeare Company ao fundo, depois das barracas de bebidas Foto: Laura Ammann
A entrada do teatro Shakespeare Company ao fundo, depois das barracas de bebidas
Foto: Laura Ammann

À parte das peças, a ida ao Shakespeare Company é um passeio por si só. O teatro fica dentro do parque Natur-Park Schöneberger Südgelände e é altamente indicado que quem tem ingresso comprado para determinado horário chegue antes. Isso porque há muito que fazer dentro do parque, incluindo tomar um vinho ou uma cerveja nas charmosas mesas à entrada do teatro.

O palco antes do início da peça Foto: Laura Ammann
O palco antes do início da peça
Foto: Laura Ammann

O parque Natur-Park Schöneberger Südgelände se estende ao longo de 18 hectares no tranquilo bairro berlinense de Schöneberg.

De 1875 a 1952, funcionava lá uma estação de trem, a Rangierbahnhof Tempelhof. Desde a sua desativação, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, floresceram milhares de espécies vegetais e animais no local, que hoje é uma área de proteção ambiental.

A fauna e a flora cobrem parcialmente os resquícios daquela época, ainda visíveis: é possível caminhar sobre os velhos trilhos de trem, ir até o final da linha – onde o trem era virado para seguir de volta em sentido oposto – e também ver de perto uma locomotiva antiga bastante bem preservada. Além disso, de longe já dá para avistar a torre d’água construída em 1927, que fica à frente da entrada do salão de embarque, onde hoje ocorrem exposições de arte.

O antigo trecho final do trilho, onde os trens eram virados Foto: Laura Ammann
O antigo trecho final do trilho, onde os trens eram virados
Foto: Laura Ammann
Antiga locomotiva que funcionava no local Foto: Laura Ammann
Antiga locomotiva que funcionava no local
Foto: Laura Ammann

O componente artístico do parque também está presente nas esculturas do grupo ODIOUS, um conjunto de seis artistas formado em 1982. Saídos da Berliner Hochschule der Künste (Universidade de Artes de Berlim), os artistas ficaram famosos na Berlim Ocidental pelas suas esculturas abstratas, inspiradas na tradição americana da qual Alexander Calder é um dos principais nomes. Feitas de aço e expostas na maioria das vezes ao ar livre, as esculturas do grupo já passaram também por notáveis galerias e museus berlinenses, como a Berlinische Galerie, o Martin-Gropius Bau e o Georg Kolbe Museum. Curiosamente, o grupo já expôs também no Brasil, nas cidades de João Pessoa e Porto Alegre.

Como a oferta de atrações do parque Natur-Park Schöneberger Südgelände é grande, se justificam as duas horas de antecedência com que cheguei no dia em que assisti à peça Macbeth. Após um passeio atento às relíquias ferroviárias do parque, é relaxante sentar-se às mesas da entrada do teatro, tomar algo e esperar a abertura do portão de madeira que leva aos assentos. Lembrando a origem pública do teatro e a sua prática no período renascentista, o Shakespeare Company é completamente aberto: palco e assentos, sem teto sobre eles, se misturam ao parque.

Dentre as peças apresentadas, a Macbeth foi reservada a semana do dia 8 de agosto. A montagem optou por manter três atores interpretando papeis fixos, enquanto os demais se revezavam entre um número maior de personagens. Nada acontece off-stage, aos moldes do teatro do alemão Bertold Brecht.

A célebre peça de Shakespeare, que gira em torno de um regicídio, teve parte do texto final adaptado e não deixou de mencionar recentes eventos como a tentativa de golpe na Turquia e a corrida presidencial americana. O aspecto moderno da peça, ao lado do seu consagrado lugar no cânone, assim como o parque em si, cuja antiga funcionalidade foi sobreposta por uma atividade contemporânea, expressa bem o que é Berlim. Entre o atual e o antigo, os jovens e os mais velhos, o peso da história e a contemporaneidade, Berlim simplesmente acontece.

A entrada do teatro Foto: Laura Ammann
A entrada do teatro
Foto: Laura Ammann

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Formada em Produção Editorial e especialista em Museologia e Curadoria, Laura Ammann é co-fundadora do projeto Arte Conceituando, que publica entrevistas sobre arte. Laura é de São Paulo, mora em Berlim e traz as suas dicas no Magari Blu.

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