Waldbühne e a primavera em Berlim

Dicas de Berlim por Laura Ammann

Há um ditado em alemão que diz: “April macht was er will”. Traduzido para o português significa “abril faz o que quer” e se refere às mudanças climáticas bruscas e imprevisíveis comuns nesse mês.

Neste ano de 2017, por exemplo, em fim de março houve uma semana particularmente ensolarada em que os ânimos de prelúdio primaveril fizeram com que todos saíssem de mangas curtas, lotando os gramados verdes dos parques de Berlim. Em compensação, em meados de abril houve dias em que o sol, a chuva e até a neve se alternassem. Mesmo assim, os berlinenses aguardam ansiosos a próxima estação e, ao menor sinal do sol, se dirigem aos espaços públicos para aproveitá-lo. Tendo isso em vista, é um momento propício para escrever sobre a Waldbühne, um espaço de confraternizações musicais particularmente atrativo nas estações mais quentes.

Waldbühne
Foto: Laura Ammann

A Waldbühne (na tradução inevitavelmente cafona de “palco na floresta”) é um anfiteatro construído entre 1934 e 1936 pelo arquiteto alemão Werner March sob o nome original de Dietrich-Eckart-Freilichtbühne, ou Palco ao Ar Livre Dietrich Eckart. O homenageado do título, morto em 1923, foi um dos fundadores do Partido Trabalhista Alemão – que originou posteriormente o Partido Nacional-Socialista – e uma das grandes influências de Hitler na sua torta ideologia.

A Waldbühne em concerto da West-Eastern Divan Orchestra em 2016
Foto: Laura Ammann

A abertura da Waldbühne se deu em associação às Olimpíadas de 1936 e desde a Segunda Guerra o espaço tem sido destinado à apresentação de lutas de boxe e espetáculos de rock e música clássica. Relativamente afastada do centro de Berlim, a Waldbühne fazia parte, juntamente com o antigo estádio olímpico, de um complexo ordenado pelo então ministro da propaganda, Joseph Goebbels. Lá, ainda durante o regime nazista, as óperas Orfeu (Gluck) e Rienzi (Wagner) foram interpretadas. Após o fim da guerra e a divisão do país, o anfiteatro acabou no setor de controle britânico, período em que seu palco cedeu lugar à Berlinale e aos Rolling Stones, Jimi Hendrix, Bob Marley e Queen.

A Waldbühne em meio à área verde
Foto: Reprodução/Wikipedia

Charme talvez não seja exatamente a palavra mais adequada para descrever a megalomaníaca construção condizente com a estética nazista que compõe esse palco. Contudo, após certa distância histórica, existe hoje uma alegre atmosfera que envolve o palco nos eventos de verão. A grande área verde que cerca o vale em que o palco está situada parece dar, se não a perfeita acústica, o perfeito clima. Em dias de show/concerto, barraquinhas de bebidas e comidas se estendem pelas vielas de terra superiores à arquibancada, e servem o público durante todo o evento.

A entrada da Waldbühne antes de um concerto
Foto: Laura Ammann

Bastante popular, a temporada de concertos de música clássica é uma boa pedida para quem quiser visitar a Waldbühne nos próximos meses. Repetindo o programa do ano passado, a West-Eastern Divan Orchestra, fundada pelo intelectual Edward Said e pelo regente Daniel Barenboim, interpretará em agosto várias peças de Wagner. Já em junho a Filarmônica de Berlim apresentará Dvořák, enquanto as opções mais pop ficarão por conta de Aerosmith e Kings of Leon.

Waldbühne
Foto: Laura Ammann

Onde encontrar:
www.waldbuehne-berlin.de

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Formada em Produção Editorial e especialista em Museologia e Curadoria, Laura Ammann é co-fundadora do projeto Arte Conceituando, que publica entrevistas sobre arte, e é mestranda em História da Arte pela Universidade Humboldt. Laura é de São Paulo, mora em Berlim e traz as suas dicas no Magari Blu.

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