O centro de São Paulo é uma experiência antropológica. Quando desbravo a Praça da Sé me sinto a “Darcy Ribeiro” de salto alto.
Sim, de salto alto, porque, apesar de toda a adrenalina, minhas idas ao centro resumem-se a trabalho. Visitas ao Fórum Central e aos Tribunais.
E uma experiência antropológica porque é a maior reunião de freaks por metro quadrado. Basta um olhar em volta para acompanhar todos os tipos de ser humano.
Chega a dar um certo receio caminhar na região, porque alguns dos malucões te encaram, falam com você e você acha que todo mundo que está ali para te fazer algum mal.
– Quer uma ajuda para carregar esses processos, doutora?!
A verdade é que depois de anos cruzando aquela praça, nunca ninguém me fez nenhum mal. Só os meus sapatos de salto alto que me deixam praticamente aleijada e eu teimo em ir ao centro com eles.
Certa vez chovia muito, eu levava um guarda-chuva em uma mão, volumes de processo na outra, bolsa pendurada no ombro, quando dei uma pisada bem firme e senti o chão da Praça da Sé, molhado…
– ARGHHHHHHHHHHHHHHHHH!
O salto do meu sapato – aquele mesmo, o assassino – por um milagre, do tipo que só acontece comigo, prendeu em um buraquinho no chão e ali ficou. Mas meu pezinho não.
Paft! – no chão “lectospirótico”.
Não preciso nem comentar quantos banhos, de água e de álcool, eu tomei para desinfetar meu pé que pisou descalço na Praça da Sé, em dia de chuva.
Outra vez, estava caminhando, pensando na vida, quando vejo a sombra de um braço cruzando minha frente, seguida pelo grito:
– JESUS!
– AHHHHHHHHHHH! – soltei, com todo o ar dos meus pulmões.
Mico de novo. O pastor querendo me converter até se calou com o berro de susto que eu dei. Recolheu a Bíblia e virou-se, como se nada tivesse acontecido.
Não é raro também de repente se ver em meio a uma correria, que de imediato parece um arrastão mas é, na verdade, a fuga dos camelôs do “rapa” da polícia. É um salve-se-quem-puder.
Nessas horas, permaneça imóvel perto de uma parede e espere o movimento terminar.
As minhas lembranças do expediente jurídico na região central de São Paulo são infinitas e ultrapassam as liminares concedidas… Do melhor bolo de chocolate da cidade aos rostinhos conhecidos atrás dos balcões e no sobe-e-desce pelas escadarias do Fórum João Mendes…
Esse tipo de recordação faz parte da vida de todos os estagiários de Direito e advogados.
Que são, aliás, esses sim os maiores freaks do centro paulistano!

Foto: Reprodução


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