Dicas de Berlim por Laura Ammann
Ehemaliges Stummfilmkino, traduzido para o português, significa “o então cinema de filmes mudos”. Na década de 1920, Berlim tinha 400 cinemas, dos quais 7 ficavam em uma só praça da região de Weißensee, hoje praticamente incorporada por Prenzlauerberg, mas na época ainda não-pertencente à cidade de Berlim. Desde 1913 Weißensee passou a desenvolver-se em torno do cinema: berço de muitas produtoras de filmes e conhecida por Klein Hollywood (pequena Hollywood), a região abrigava a produtora onde aconteceram as gravações do clássico expressionista alemão “O Gabinete do doutor Caligari”, dirigido por Robert Wiene.
O Ehemaliges Stummfilmkino Delphi (ou simplesmente, o Delphi) foi o último cinema de filmes mudos construído em Berlim. Com capacidade para receber 870 pessoas, o Delphi foi aberto em Weißensee em 1929, quando o cinema falado já estava em fase de comercialização. Após a quebra da bolsa americana no mesmo ano, muitas das produtoras de filme e cinemas da região fecharam as portas, mas o Delphi sobreviveu. Em 1959, no entanto, a casa fechou e permaneceu adormecida por algum tempo, sendo usada como galpão de verduras, loja de selos, lavanderia e, por último, galpão de defesa civil da DDR (em português RDA). O local foi então comprado em 2006 e reaberto como uma espécie de centro cultural em 2013.

Foto: Laura Ammann
Hoje, o Delphi exibe peças de teatro, óperas e também filmes antigos. O interior é especialmente preservado: ao contrário dos geralmente restaurados prédios históricos, o Delphi manteve o espírito 1920 através do palco, das pinturas descascadas e das cortinas empoeiradas, reproduzindo sua antiga aura de uma maneira tipicamente berlinense. Isso foi possível graças ao fato de o antigo cinema não ter sido fortemente atingido durante a Guerra.

Foto: Laura Ammann
Conheci a casa no começo desse ano, assistindo à ópera “Le Comte de Hoffmann”, do alemão Jacques Offenbach. Semana passada retornei ao Delphi para a exibição do filme “A Foreign Affair”, de Billy Wilder. Estrelando Marlene Dietrich, o filme de 1948 se passa na Berlim do pós-guerra: em cenas que mostram a cidade fortemente bombardeada e dividida entre os países aliados, os atores performam somente dois anos após o fim da Segunda Guerra fortes piadas com os alemães e com Hitler.

Foto: Laura Ammann
A experiência de assistir a um filme desses na própria cidade retratada por ele é única: em nenhum outro país a reação da plateia à saudação nazista mostrada no filme seria de tão desagradável surpresa. Em outros momentos, entretanto, a plateia mostrou senso de humor, ao rir de cenas que estereotipam o alemão na figura do eterno soldado frio e gritalhão (como na cena em que a personagem de Dietrich enfrenta um oficial alemão para quem deve mostrar seus documentos).

Foto: Laura Ammann
Atualmente – sorte para quem se encontra em Berlim – a programação do Delphi está cheia. Para a próxima semana estão programados filmes, um concerto de uma banda síria precedido por um Story Telling de mesma temática, além da festa de Réveillon, que ocorrerá no Delphi no dia 31.

Foto: Laura Ammann
A casa retornará em 2017 com a peça “Hamlet”, de Shakespeare, que será exibida nos dias 06, 07 e 08 por uma companhia de teatro de Potsdam, cidade vizinha de Berlim, que com certeza é um dos “must-sees” para quem vem para cá.
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