Conferência de Wannsee

Dicas de Berlim por Laura Amman

A região de Wannsee, nos subúrbios de Berlim, era no início do século 20 uma região de ricas casas de veraneio. Muitos abastados berlinenses, na sua maioria judeus, passavam seus verões longe da cidade, à beira dos lagos da região – como era o caso do pintor Max Liebermann, tema da coluna passada.

O prédio da Conferência de Wannsee (vista frontal)
Foto: Laura Ammann

Já em 1933, com a eleição de Hitler, essas famílias se viram paulatinamente forçadas a vender suas propriedades, por preços irrisórios, em favor da política racial que se estabelecia. As luxuosas vilas se tornaram residência de membros do alto escalão da SS. A região, convenientemente localizada entre Berlim e Potsdam, abrigava também o Campo de Retreinamento Wannsee, inicialmente projetado para preparar os judeus para a imigração para a Palestina, e posteriormente transformado em capo de trabalho forçado, como tantos outros. Finalmente, em 1943, as deportações desse campo para outros, de extermínio, começaram.

O jardim do prédio da Conferência de Wannsee
Foto: Laura Ammann

Entre os moradores da região estavam Joseph Goebbels, ministro da propaganda, o arquiteto Albert Speer e o cirurgião e comandante do Escritório de Políticas Raciais, Walter Gross. Este último, defendia fervorosamente a abolição da divisão entre “meio-judeus” e “judeus completos”, distinção estabelecida com as leis de Nürnberg (1935), em favor de uma política semelhante à da “gota única” com relação aos negros nos E.U.A. até o fim da década de 1960.

O prédio da Conferência de Wannsee (vista do fundos)
Foto: Laura Ammann

O conceito Mischlinge, perfeitamente traduzível como mestiços, foi um dos temas discutidos na Conferência de Wannsee, em 1942, ocorrida em um dos palácios de Wannsee. O objetivo da conferência era se chegar a uma solução para impedir a procriação dos judeus, a fim de garantir uma sociedade cada vez mais ariana. A decisão da reunião, a chamada solução final. O resultado prático, a intensificação de um sistema massificado de exportação e extermínio de judeus, a partir de 1943.

O jardim do prédio da Conferência de Wannsee com placas informativas
Foto: Laura Ammann

Hoje, o local de abrigo a ideias tão nefastas é aberto ao público com duas exposições, uma interna e outra no jardim. Ironicamente, o local é idílico; calmo e particularmente bonito na primavera.

A exposição intitulada “As vilas e casas de verão dos agentes nazistas” (em tradução livre) fornece um bom panorama histórico da transformação de Wannsee duante tempo tão sombrio, marcado por perseguições, suicídios e interrupções. No entanto, a homenagem a essas vidas só se materializou anos depois da primeira proposta para que isso ocorresse. Após o julgamento de Adolf Eichmann (documentado pela filósofa alemã Hannah Arendt) em Jerusalém (1962), na recém-estabelecida Israel (1948), um sobrevivente de Auschwitz chamado Joseph Wulf (1912-1974) tentou estabelecer um centro de pesquisas sobre o Holocausto no prédio da conferência. Suas tentativas foram em vão. Somente em 1987 o senado de Berlim converteu o lugar ao memorial que ele é hoje.

O jardim do prédio da Conferência de Wannsee
Foto: Laura Ammann

O local, hoje em parte despido de seu peso histórico, dada a distância cronológica que o envolve, é de fácil acesso e de válida visita. O trem regional e um ônibus deixam o visitante na porta do Prédio da Conferência de Wannsee (Haus der Wannsee-Konferenz).

Detalhe do prédio da Conferência de Wannsee
Foto: Laura Ammann

Os objetivos da instituição, assim como ela própria os coloca, são três: 1. homenagear as vítimas das políticas de extermínio nazistas; 2. fornecer informações sobre os crimes nazistas; 3. e educar visitantes sobre a importância da democracia e dos direitos humanos. O turista que se dedica a esse passeio vivencia aquilo que Berlim tem de melhor a oferecer: história e memória.

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Formada em Produção Editorial e especialista em Museologia e Curadoria, Laura Ammann é co-fundadora do projeto Arte Conceituando, que publica entrevistas sobre arte, e é mestranda em História da Arte pela Universidade Humboldt. Laura é de São Paulo, mora em Berlim e traz as suas dicas no Magari Blu.

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