Dicas de Berlim por Laura Amman
O pintor Max Liebermann é um dos maiores nomes do impressionismo alemão. Judeu berlinense, seu nascimento e sua morte testemunham extremos da atitude alemã frente seus cidadãos judeus: se de um lado, três dias após seu nascimento, em 1847, entra em vigor o Preußisches Judengesetz – conjunto de leis prussianas que garantiam maior liberdade e envolvimento dos judeus na sociedade –, de outro, Liebermann morre às vésperas da Segunda Guerra, em 1935, pesaroso em razão da situação de seus pares.

Foto: Reprodução
Liebermann cresceu em Berlim no imóvel de seus pais, que viria a ser seu após a morte deles, privilegiadamente localizado na Parisier Platz 7 – literalmente em frente ao Portão de Brandemburgo. Como muitos de sua geração, enquanto se ocupava da pintura nas horas vagas, estudava química na Universidade Humboldt para agradar ao pai, vindo a abandonar eventualmente por completo a faculdade a fim de se dedicar integralmente à arte. Sua formação como pintor passa pela Holanda e França, onde assimila suas maiores influências. Depois do contato com os impressionistas franceses, seu trabalho passa de rembranianas cenas cotidianas ou bíblicas, para iluminados Biergartens, onde os hiatos das árvores permitem que flocos de sol atinjam o chão.

Foto: Laura Ammann
Em 1884 o pintor retorna a sua natal Berlim, se torna um dos líderes do grupo artístico Berliner Secession e representa a Alemanha na Primeira Bienal de Veneza (1895). Em 1909, tendo herdado o imóvel da Parisier Platz e mantendo também um ateliê na cidade, Max Liebermann começa a construir sua casa de veraneio em Wannsee, a que ele apelida carinhosamente de seu “Schloss am See” – seu palácio ao lago. De 1914 até sua morte, Liebermann passou seus meses de verão em Wannsee, muitas vezes em companhia também da família. Sua obra tardia é fortemente influenciada pelos cenários de veraneio: mais de 200 pinturas retratam a casa, seus jardins e seu interior.

Foto: Laura Ammann

Foto: Laura Ammann
Em 1940, cinco anos após a morte do artista, a viúva Martha Liebermann foi forçada pelo regime nazista a vender a casa de verão por um parco preço, depositado a ela em uma conta congelada pelo Estado. Em 1943, enquanto aguardava sua deportação para o campo de concentração Theresienstadt, Martha suicidou-se. Um Stolperstein na Parisier Platz 7 a homenageia. O antigo “palácio” de Liebermann foi recuperado pela filha do casal (Käthe), que havia conseguido fugir para os EUA, ao passo que a neta de Liebermann, figura recorrente em suas pinturas, doou a propriedade à Berlim, tornando possível a fundação da Max Liebermann Villa.
A Max Liebermann Villa, por sua vez, é um museu-casa dedicado à memória do pintor. Enquanto sua antiga casa de veraneio teve o interior reformado a fim de assegurar os requisitos de um museu; certa atmosfera (re)criada convidam-nos a imaginar Max Liebermann em seus verões.

Foto: Laura Ammann

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Alternam-se, com a exposição de longa duração com obras de Liebermann, mostras temporárias com pinturas também de outros artistas contemporâneos a ele. Até o dia 25 de junho desse ano é possível ver a mostra “Max Liebermann e o Esporte”. Liebermann foi o primeiro alemão a se ocupar de forma regular de temas que giram em torno de atividades esportivas, principalmente ao ar livre: tênis, esportes a cavalo, polo e regata são temas exibidos agora no museu.

Foto: Laura Ammann

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A mostra, pequena e bem curada, tem uma aura íntima, familiar e doméstica. Os textos de parede, atípicos em qualidade e em pertinência, harmonizam-se com as pinturas de Liebermann. Em um deles, um trecho de uma carta de 1900 que o artista escreve à sua esposa, Martha, expõe certo desassossego do pintor em relação à filha do casal: “A vida de Käthe não pode consistir exclusivamente de prazeres (…) Ela simplesmente não pode jogar tênis o dia todo”. No entanto, a reserva inicial tornou-se, após Liebermann ter sido introduzido ao esporte por sua filha, objeto de pinturas futuras. A Vila Max Liebermann é um espaço destinado à arte, mas também àquilo que é comum a todos: afeto e memória.

Foto: Laura Ammann

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