O causo do policial de Punta

Na viagem de ano novo para Punta del Este, minhas amigas e eu alugamos um carrinho que carinhosamente apelidamos de IAC, apelido este originado pelas letras da placa do nosso possante.

Quando todas estavam já em território uruguaio, fizemos a indispensável visita à praia de José Ignacio. A estrada que liga José Ignacio a Punta é de pista simples e a paisagem muitas vezes rouba a atenção.

Pois bem. Deve ter sido o que aconteceu conosco.

Estávamos voltando, com o som ligado no máximo, todas dançando dentro do carro, cada uma fazendo sua performance característica. Mas nenhum ombrinho estava parado.

Foi aí que, no calor da emoção, a minha amiga que dirigia se apressou em ultrapassar o carro que estava à nossa frente, sem se dar conta que a faixa contínua amarela na pista estava logo ali.

Logo ali estava também um guarda à espreita. Só esperando algum desavisado cometer a infração.

– IIIIIxi, o guarda pediu para parar.

– Encosta aí.

– Ferrou!

– Pega os documentos do carro.

– Desce.

– Ai…

O guarda se aproximou, minha amiga saltou do carro e apresentou os documentos.

Eu estava no banco de trás. Rapidamente abri a janela para ouvir o que estava acontecendo.

Não falo nada de espanhol, mas uma coisa ou outra dava para entender. Percebi que o guarda queria apreender a carta de motorista da minha amiga e retê-la por 15 dias. Além de nos aplicar uma multa.

O policial perguntava quando partiríamos, certamente na expectativa de acabar com as nossas férias.

Foi então que tive a brilhante idéia de pedir para outra amiga descer do carro também e tentar transformar a multa em uma advertência. Era a única amiga que falava espanhol e poderia ser de grande ajuda. Afinal a amiga motorista só dizia:

– Ahhhh…

– Vou apreender a sua carta de motorista.

– Ahhhh…

– Por 15 dias.

– Ahhhh…

Pois bem, a outra amiga desceu do carro dizendo que no Brasil a sinalização era diferente, ou seja, que a linha contínua amarela não significava ultrapassagem proibida.

“Oi?”, eu pensei, e junto com as outras duas dentro do carro seguramos o riso.

Continuei ouvindo a conversa dos três à beira da estrada. Escutei minha amiga motorista prometer que nunca mais ultrapassaria em local proibido.

– Eu pro-me-to!

E o guarda rebateu:

– Não acredito em promessa das mulheres.

Foi aí que eu relaxei. Falei para as meninas que o policial era bonzinho, estava até fazendo graça… Quem sabe daria para escaparmos dessa…

Um minuto de distração e eis que escuto a seguinte conversa:

– Mas o seu nome é Fernando? Que coincidência, meu nome é Fernanda!

– Sim, Fernando Rodriguez!

– Vamos tirar uma foto? O Fernando e a Fernanda!

Eu não acreditei no que estava ouvindo. Pensei que agora é que estávamos fritas mesmo, que o policial ia mandar todas para a delegacia de Maldonado.

Foi aí que veio a pronta resposta dele:

– Claro! Só não vai postar no Facebook, hein?

Quando vi, as minhas amigas não só tinham tirado uma foto com ele, como estavam adicionando o tal no Facebook.

Eu não acreditava.

Multa? Que multa?

Carta apreendida? Não não.

O guarda se despediu com abraços, recomendações e feliz ano novo para todas.

Alguns dias depois passamos pelo mesmo guarda, à espreita no mesmo local, e ele ainda nos reconheceu e acenou para nosso carro, todo empolgado.

Como velhos amigos.

Y viva la latinidad!

“O” IAC
Foto: magari blu

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