Tour artístico no Reichstag, o parlamento alemão

Dicas de Berlim por Laura Ammann

O parlamento alemão, conhecido como Reichstag, é um dos mais atraentes destinos turísticos de Berlim. Se em parte o sucesso se deve à sua importância histórica, é verdade também que poucas atrações da cidade são tão bem organizadas, turisticamente falando. O Reichstag oferece diariamente visitas guiadas gratuitas e é raro passar pela região e encontrá-la vazia.

A sala onde ocorrem as sessões do plenário, abertas à visitação.
A águia prateada é uma referência ao símbolo de diversas bandeiras da história alemã, enquanto as cadeiras têm essa cor especificamente escolhidas pelo contraste na TV
Foto: Laura Ammann

O prédio do Reichstag, inaugurado em 1894 após dez anos de construção, foi erguido para abrigar o parlamento do Império Alemão (1871-1918), e por isso, o prédio é ainda conhecido por esse nome (Reich, do alemão “império”). Hoje em dia, ele continua sendo a casa do parlamento alemão, chamado de Bundestag (Bundes, do alemão “federal”), mas na fala popular ele continua sempre sendo o Reichstag de Berlim. Mesmo após o fim do Império, durante o período conhecido como a República de Weimar (1919-1933), o mesmo prédio continuava abrigando o parlamento alemão, até que um incêndio em 1933 interrompesse momentaneamente a história do local.

Com os nazistas no poder, o Reichstag passou a ser um prédio abandonado e politicamente desnecessário: a chancelaria idealizada pela parceria Hitler-Speer, cujas partes foram usadas para construir o memorial soviético em Treptower Park, passou a ser o polo de poder da cidade. Em terreno oriental entre 1961 e 1989, a construção continuou em desuso até a reunificação alemã.

Em 1992 o arquiteto Norman Foster venceu um concurso para a sua reforma. Talvez o dado mais famoso do projeto de Foster seja a cúpula de vidro: uma estrutura central de escamas espelhadas é circundada por rampas, da onde sobem e descem pessoas entre as 8:00 e a meia-noite de todos os dias. Além da visita isolada à cúpula (onde há também um restaurante), o Reichstag oferece vários tipos de visita guiada: com foco histórico, arquitetônico e artístico ou para presenciar uma sessão parlamentar.

A cúpula de vidro, projetada por Norman Foster
Foto: Laura Ammann

O tour focado em arte e arquitetura é oferecido há pouco tempo e eu fui experimentá-lo. O caráter arquitetônico é naturalmente mais esperado, mas a quantidade de obras de arte dentro do Reichstag pode surpreender. Com uma equipe curatorial própria, o Reichstag adquire uma obra a cada ano, mantendo certo foco em artistas alemães contemporâneos como como Georg Baselitz, Gerhard Richter, Sigmar Polke e Anselm Kiefer – embora hajam exceções. Uma preocupação da curadoria, como é explicado durante o tour, é que a arte política não deve ser partidária.

Durante o passeio guiado passa-se por algumas salas de reunião e ambientes comuns. Cada uma das salas tem uma obra, geralmente de grandes proporções, tornando-a uma espécie de ponto central de perspectiva, em contraste com o tom monocromático da maioria das salas.

Uma das primeiras paradas do tour é uma capela projetada por Günther Uecker, chamada Andachtsraum (“quarto das devoções”). A ideia é que esse cômodo tenha condições de receber crentes de qualquer religião. A presença de livros budistas, cristãos (católicos e protestantes), árabes e judeus, além de uma abertura na janela orientando a posição de Meca busca garantir esse objetivo. Algumas telas são simplesmente apoiadas na parede e um bloco de pedra quase asséptico representa uma espécie de altar. Posteriormente, uma cruz foi posta sobre a pedra, sendo hoje o único sinal de louvor a um braço religioso específico.

A capela projetada por Günther Uecker
Foto: Laura Ammann

Em um dado momento a guia para o grupo em um hall onde podem ser vistas inscrições na parede. Os registros, deixados por soldados soviéticos após a Segunda Guerra, foram mantidos em razão de sua carga histórica.

A guia mostra ao grupo as inscrições soviéticas nas paredes
Foto: Laura Ammann

No subsolo, uma obra do artista francês Christian Boltanski, chamada Archiv der deutschen Abgeordneten (Arquivo dos membros do parlamento alemães), consiste em quase 5 mil gavetas espalhadas em uma estrutura interativa. Cada uma delas contém um nome de um membro do parlamento alemão desde 1919 até 1999, o ano da inauguração do prédio reformado por Foster. Um intervalo temporal é destinado aos anos entre 1933 e 1945, para os quais não há nomes democráticos a serem mencionados.

A obra do artista francês Christian Boltanski
Foto: Laura Ammann

Por fim, uma grande ala do Reichstag é destinada aos registros, fotos e materiais da mais ambiciosa intervenção artística já feita no prédio: Wrapped Reichstag, do búlgaro Christo. Durante 24 de junho e 07 de julho de 1995 o prédio do parlamento alemão (ainda sem a cúpula de Foster) esteve completamente coberto por um tecido de polipropileno. Uma sala é destinada à exposição das fotos do processo de votação para o projeto ou de conversas com o artista, bem como cartas e outros documentos. Enquanto isso, os corredores do mesmo andar exibem fotos do Reichstag “submerso” e pedaços dos tecidos e cordas usados na instalação.

A sala destinada ao registro do projeto de Christo
Foto: Laura Ammann
Fotos do “Wrapped Reichstag”, de Christo, em um dos corredores do Reichstag
Foto: Laura Ammann

Por envolver vários trabalhos de diversos artistas, é impossível fazer um registro rápido que descreva a visita. É interessante, contudo, a clara preocupação da curadoria em selecionar obras que dialoguem com a história alemã e com a arquitetura que as recebe. Percebe-se também a consciência de que a arte pode ser uma poderosa mensagem e não somente decoração.

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Formada em Produção Editorial e especialista em Museologia e Curadoria, Laura Ammann é co-fundadora do projeto Arte Conceituando, que publica entrevistas sobre arte, e é mestranda em História da Arte pela Universidade Humboldt. Laura é de São Paulo, mora em Berlim e traz as suas dicas no Magari Blu.

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