Teufelsberg, a Montanha do Diabo em Berlim

Dicas de Berlim por Laura Ammann

Berlim não é um lugar de muitos montes. Nessa plana cidade, Teufelsberg é um acidente raro. A Montanha do Diabo (Teufel, diabo + Berg, montanha) é um morro artificialmente erguido após a Segunda Guerra, sobre cujos dejetos se encontram 75 milhões de metros cúbicos de lixo de guerra – do qual alguns fragmentos de tijolos se mostram no caminho morro acima – sustentam um complexo de gigantes e brancas “bolas de futebol”. Esse complexo, enigmático tanto de longe quanto de perto, é o que atrai os visitantes de Teufelsberg.

Antiga pista de esqui, que hoje pode ser contemplada no caminho de Teufelsberg, ao subir o monte Foto: Laura Ammann
Antiga pista de esqui, que hoje pode ser contemplada
no caminho de Teufelsberg, ao subir o monte
Foto: Laura Ammann

Subtraindo das camadas de entulho uma camada de história, chega-se a parte do que sustenta hoje a colina: a ruína de uma academia militar nazista, projetada por Albert Speer. O projeto, nunca finalizado, serviria de uma espécie de faculdade e colégio técnico para jovens militares. Os aliados, tendo falhado na tentativa de explodir aos ares a construção, acabaram deixando o local disponível para servir de entulho a céu aberto.

Teufelsberg, localizada então na parte ocidental de Berlim, passou por modificações durante a divisão da Alemanha. O monte, então já inteiramente forjado, era o ponto mais alto da Berlim Ocidental – e o continua sendo hoje em dia, com 121 metros de altura. Na época da divisão faziam parte das iniciativas em relação à montanha, o plantio de algumas espécies vegetais – a fim de reavivar o local – e a construção de uma estação de esqui, em 1964. Durante o inverno competições de esqui eram sediadas e, durante o verão, o local era perfeito para piqueniques em família.

Teufelsberg Foto: Laura Ammann
Teufelsberg
Foto: Laura Ammann

Um pouco antes, em 1961, a Agência Nacional de Segurança americana (NSA) construiu uma central de escuta (Listening Station), de onde interceptava comunicações entre países socialistas. Nessa época, os americanos chamavam Teufelsberg de “The Hill” (a colina). O nome pelo qual se conhece o monte hoje vem de um lago chamado da região: o Teufelssee, ou o lago do Diabo. Essa ex-central americana é o que se vê em ruínas atualmente.

As gigantes “bolas brancas” deviam servir bem ao seu propósito: quando se visita Teufelsberg hoje, qualquer um sente-se tentado a testar o eco dessas estruturas com a própria voz. O som, que tem algo de incômodo, colabora com toda uma atmosfera de atração tipicamente berlinense. Esse recurso sonoro foi muito bem aproveitado pelo artista albanês Anri Sala, com seu trabalho “Answer Me” (2008): um vídeo retrata um casal no cenário de Teufelsberg, incapaz de se comunicar, abafado pelo som da bateria que o personagem masculino toca.

Teufelsberg Foto: Laura Ammann
Teufelsberg
Foto: Laura Ammann

Após a reunificação alemã, iniciativas por parte do governo de transformar Teufelsberg em um museu sucumbiram à ocupação punk do monte. Berlim é uma das poucas cidades que conheço no mundo onde existem locais nos quais a lei não entra: ruínas históricas, ocupadas por grupos punks, ciganos, sem-terra; ou ainda, ocupadas por oportunistas que cobram dinheiro para autorizar a entrada ao que é de ninguém. Em todo caso, Teufelsberg nunca foi administrado pelo governo após a Guerra Fria e hoje, apesar de não ser de difícil acesso, é difícil determinar quem estará a cargo da entrada dos visitantes. Visitas guiadas intermitentemente são implementadas – não por muito tempo. Com essa alternância de “poderes”, o visitante de Teufelsberg tem duas alternativas, igualmente eficientes: realizar uma consulta prévia pouco tempo antes da visita ou simplesmente seguir rumo montanha acima. O risco de não conseguir entrar no complexo é praticamente inexistente, e a entrada gira normalmente em torno de € 7. Contudo, uma dica importante é aproveitar sempre a luz do dia, já que o local não possui infraestrutura turística de qualquer tipo. Escadas não iluminadas solicitam a lanterna do celular, assim como elevadores desativados e pichados não convidam o visitante ao último andar.

Teufelsberg Foto: Laura Ammann
Teufelsberg
Foto: Laura Ammann

Entretanto, a vista é uma das mais recompensadoras que a cidade de Berlim oferece. Teufelsberg inspira, mesmo que em meio a grupos dos mais diversos – dos jovens bebendo Heineken aos senhores aventureiros –, silêncio. O horizonte revela ao longe, após uma camada verde rara aos moradores das grandes cidades mundo afora, a cidade de Berlim. Teufelsberg é uma materialização concreta de camadas históricas: turismo berlinense sobre o branco complexo “futebolístico” da NSA, por sua vez sobre uma estação de esqui, igualmente sobre montes de terra e lixo sobre, finalmente, uma nunca finalizada academia nazista.

Teufelsberg Foto: Laura Ammann
Teufelsberg
Foto: Laura Ammann

Duas dicas finais para aproveitar ainda mais o que Teufelsberg tem a oferecer: 1) a exposição do artista Julian Rosefeldt na Hamburger Bahnhof, importante museu contemporâneo de Berlim, foi prolongada até dia 06 de novembro desse ano. Na coletânea de vídeos do artista com a atriz Cate Blanchett, intitulada “Manisfesto”, um deles se passa em Teufelsberg. 2) O livrinho – pequeno – de Chris Wunsch, intitulado “Teufelsberg – A Berlin Ruinology” traz informações rápidas e práticas sobre esse local, tão único.

Fale conosco para organizar a sua viagem:

Formada em Produção Editorial e especialista em Museologia e Curadoria, Laura Ammann é co-fundadora do projeto Arte Conceituando, que publica entrevistas sobre arte, e é mestranda em História da Arte pela Universidade Humboldt. Laura é de São Paulo, mora em Berlim e traz as suas dicas no Magari Blu.

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One thought on “Teufelsberg, a Montanha do Diabo em Berlim

  1. Suely Torres says:

    Adoro seus textos, fotos e profundidade, conhecimento da cidade de Berlin, amo Berlin e tenho o maior respeito por que sabe falar e escrever bem sobre esta minha amada cidade há 27 anos. Parabéns .

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